quarta-feira, 12 de julho de 2017

QUEM TEM O DEDO PODRE PARA O AMOR?


De forma informal, ou seja, não consistia em um dos meus pacientes, certa pessoa desabafou comigo: “é um inferno, por mais que tente TODOS os meus relacionamentos sempre terminam da mesma maneira”.
Para que o leitor compreenda “a mesma maneira” consistia na descoberta de que estava sendo traída há meses, para logo depois ficar se perguntando literalmente se não teria “um dedo podre para o amor”.
Recordei-lhe que nem todos seus relacionamentos terminaram assim. Houve um que ela é que tinha dado o ponto final e sem ser traída.
O interessante é que esse sujeito nas palavras da minha interlocutora consistia em “um príncipe... educado, romântico, trabalhador, de boa índole, fiel, mas... faltava alguma coisa... um sei lá o que”.
Claro que, não seria ético da minha parte analisar essa jovem. Todavia, a questão central dela é um ponto interessante para discutirmos: será que determinadas pessoas foram agraciadas com o tal dedo pobre para o amor e estão condenadas a caírem na mesma armadilha de experienciar relacionamentos frustrantes, oposto do que propunham vivenciar ao lado do ser amado?
Você já percebeu como as crianças ao verem uma cena trágica de um desenho, como o Rei Leão por exemplo, pedem para rever este repetidas vezes, isso até o momento em que parecem compreender o que ocorreu?
Freud descobriu que o mesmo acontece com os adultos. Sim, nos repetimos no intuito de elaborar (compreender o que não foi compreendido). É como se buscássemos no novo relacionamento rever os pontos que levaram o relacionamento anterior a chegar ao fim. Um ciclo vicioso, ao qual, nós alimentamos de forma inconsciente.
Mas, um fato ocorre: quando a “boa sorte sorri” — como essa pessoa definiu —, parece que somos tomados por uma cegueira, não temos forças, deixamo-la de lado e voltamos para a velha armadilha. Porque será que isso ocorre?
Essa resposta só será possível durante o processo analítico, onde, a partir da escuta flutuante e associação livre levamos o paciente a descobrir quais, os mecanismos que o levam a repetir-se, rever seu posicionamento e empoderar-se do seu desejo. Em suma como diz Jorge Forbes: em análise nos desautorizamos o sofrimento, autorizamos o desejo e colocamos o sujeito a perceber sua parcela de responsabilidade frente a ambos.
E agora pergunto-te, tal qual, fiz à essa jovem: por quanto tempo mais você vai permitir repetir seu sofrimento?
            Fim da sessão.

            Ricardo Steil - Psicanalista
                                CRP 12/14514