De forma
informal, ou seja, não consistia em um dos meus pacientes, certa pessoa
desabafou comigo: “é um inferno, por mais que tente TODOS os meus
relacionamentos sempre terminam da mesma maneira”.
Para que o
leitor compreenda “a mesma maneira” consistia na descoberta de que estava sendo
traída há meses, para logo depois ficar se perguntando literalmente se não
teria “um dedo podre para o amor”.
Recordei-lhe
que nem todos seus relacionamentos terminaram assim. Houve um que ela é que
tinha dado o ponto final e sem ser traída.
O interessante
é que esse sujeito nas palavras da minha interlocutora consistia em “um
príncipe... educado, romântico, trabalhador, de boa índole, fiel, mas...
faltava alguma coisa... um sei lá o que”.
Claro que, não
seria ético da minha parte analisar essa jovem. Todavia, a questão central dela
é um ponto interessante para discutirmos: será que determinadas pessoas foram
agraciadas com o tal dedo pobre para o amor e estão condenadas a caírem na mesma
armadilha de experienciar relacionamentos frustrantes, oposto do que propunham
vivenciar ao lado do ser amado?
Você já percebeu
como as crianças ao verem uma cena trágica de um desenho, como o Rei Leão por
exemplo, pedem para rever este repetidas vezes, isso até o momento em que
parecem compreender o que ocorreu?
Freud
descobriu que o mesmo acontece com os adultos. Sim, nos repetimos no intuito de
elaborar (compreender o que não foi compreendido). É como se buscássemos no
novo relacionamento rever os pontos que levaram o relacionamento anterior a
chegar ao fim. Um ciclo vicioso, ao qual, nós alimentamos de forma
inconsciente.
Mas, um fato
ocorre: quando a “boa sorte sorri” — como essa pessoa definiu —, parece que somos
tomados por uma cegueira, não temos forças, deixamo-la de lado e voltamos para
a velha armadilha. Porque será que isso ocorre?
Essa resposta
só será possível durante o processo analítico, onde, a partir da escuta
flutuante e associação livre levamos o paciente a descobrir quais, os mecanismos
que o levam a repetir-se, rever seu posicionamento e empoderar-se do seu
desejo. Em suma como diz Jorge Forbes: em análise nos desautorizamos o
sofrimento, autorizamos o desejo e colocamos o sujeito a perceber sua parcela
de responsabilidade frente a ambos.
E agora
pergunto-te, tal qual, fiz à essa jovem: por quanto tempo mais você vai
permitir repetir seu sofrimento?
Fim
da sessão.
Ricardo Steil - Psicanalista
CRP 12/14514